sábado, 22 de dezembro de 2012

Sobre a menina no espelho


E ela olhava. Olhava-me como se soubesse o que se passava dentro de minha alma. Como se entendesse tudo, todos os conflitos e angustias que eu jamais contei a alguém. É assim, sorrimos para não chorar, bebemos para nos enganar. Porém ao deitar a cabeça no travesseiro, nos segundos entre dormir e estar acordado, tudo vem a tona, entra pelas veias como soro, e dói.
As vezes sentia que mesmo calada, ela gritava, e meus ouvidos, sem nem mesmo sentir uma única vibração sequer do ar, a ouvia. Nos seus olhos castanhos, ela chorava, sem derramar uma lágrima. Mesmo assim... escorria. Eu trocava de roupa, de idade, de anseios. Ela se despia. Arrancava fora quase tudo que podia.
Quantas vezes a olhava, e mesmo a vendo, não enxergava. E meu ego explodia. Cada um cultiva o seu como quiser. Enquanto eu deixava o meu crescer, freneticamente ela se debatia. Eu queria enxergá-la, mas estava cega. Nos deslumbramos com tão pouco.
Os anos passavam. As horas corriam. 
E ela continuava a me olhar. Até que um dia eu acordei. Então pude notar, que mesmo com o passar dos anos, ela se mantinha sã. Entre gritos e berros, a louca era eu, que estava em silêncio.


3 comentários:

  1. Adorei teu conto. Certa vez postei um semelhante a este, no blog. Eu gosto quando a história envolve totalmente o interior da pessoa, mostrando-o de forma detalhada e intensa.

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    1. É uma republicação, publiquei ele em abril de 2011. Achei pertinente republicar, já que agora estou aprendendo a não ficar mais em silêncio.
      Que bom que gostou. =)

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  2. Olá. Gostei muito do texto! Mas, não encontro uma palavra exata para definir, não saberia se forte, intenso, tocante.
    Ah, uma coisa eu achei muito boa também, foi seu comentário acima: "já que agora estou aprendendo a não ficar mais em silêncio"
    Faz você muito bem! Desde comecei a agir da mesma forma, muita coisa melhorou! =)
    Mas, enfim, você escreve muito bem. Parabéns.

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